Aula de linguística

Aula de linguística 

 

Que tal ter uma noção inicial de linguística com Giovanna Agria?

O curso de linguística é de humanas ou de exatas? Há controvérsias! Neste texto, apresento uma visão geral sobre os cinco ramos que formam o sistema linguístico: morfologia, sintaxe, semântica, fonética e fonologia, com foco na língua inglesa. Abordo temas sobre como o nosso léxico funciona, o que é o diagrama arbóreo da sintaxe, a complexidade da semântica formal e como vogais e consoantes são classificadas. Estudar linguística é analisar regras e padrões que existem em uma certa língua para que ela possa existir. É um processo muito complexo, mas muito incrível, que fazemos sem perceber.

Giovanna Agria, nossa professora de linguística

Giovanna Agria, estudante do curso de Formação de Tradutores da Interpret2b, é bacharela em Linguística pela Carleton University, no Canadá, onde também estudou ASL (American Sign Language). Lá, também participou do primeiro congresso sobre linguagem inclusiva de pessoas não binárias, chamado THEY 2019. É professora de inglês desde 2010, tradutora audiovisual e busca o mestrado em Linguística. 

LING101 - Uma miniaula de linguística

Você já se perguntou como sabemos criar palavras e por que algumas delas fazem mais sentido do que outras? Você já percebeu que quando aprendemos palavras de uma língua estrangeira conseguimos formar outras palavras, sem ajuda de nada, sem pensar em regras? Quanto mais palavras aprendemos, mais elas fazem sentido, não é? Linguistas também têm essas dúvidas!

O foco deste texto é aprender um pouco sobre o estudo da linguística: a ciência que estuda a linguagem humana. As primeiras ideias sobre as estruturas da linguagem são do pai da linguística, Ferdinand de Saussure, e serviram como base para o progresso da ciência linguística. Apresento, então, uma ideia dos assuntos discutidos em linguística e de como aprendemos sobre nosso sistema linguístico. Minha intenção é dividir um pouco do meu conhecimento sobre linguística e despertar seu interesse por essa disciplina tão maravilhosa, já que ela é nosso trabalho.

Uso exemplos do inglês porque essa foi a língua na qual foquei na faculdade, mas quero deixar claro que quando se estuda linguística, analisamos muitas línguas ao mesmo tempo.

Morfologia

Eu poderia falar sobre morfemas, mas a morfologia é muito mais do que afixos. Ela estuda a estrutura interna das palavras e as teorias que explicam nossa habilidade de construir e usar palavras novas. Essas teorias dizem respeito à nossa competência morfológica – o nosso conhecimento de palavras e regras da língua – e também ao nosso desempenho morfológico – como usamos esse conhecimento em prática, para comunicação. É um ramo bem complexo e teórico da linguística. Há muitas incertezas, ainda, sobre a nossa capacidade de aprender as “leis” das línguas e como elas realmente funcionam no nosso cérebro.

Um tópico muito discutido na morfologia é o nosso processo de construção de palavras. De acordo com o linguista Morris Halle, ele acontece no nosso léxico, nesta ordem:

Usemos os morfemas un-, break e –able como exemplo. Eles estão armazenados no nosso léxico, assim como as regras para a formação de palavras novas (Word Formation Rules –WFR). Quando juntamos esses morfemas e formamos a palavra unbreakable, ela é, somente, uma “possível palavra”. Então, ela passa pelo filtro, para que possamos checar sua validade. Se fizer sentido, ela se torna, somente aí, uma palavra, e são essas que vão para o dicionário. Depois do filtro, checamos seu uso em uma frase e a fonologia checa se é possível pronunciarmos os sons dos três morfemas juntos. Mas Halle diz que esse processo é tão poderoso que as WFRs têm que checar seus próprios resultados. Por isso, depois do processo fonológico, devemos checar se a palavra realmente segue as regras de formação de palavras. Ou seja, o processo se recicla. Veja esse exemplo: por que não pode ser inbreakable? Até soa estranho, não é? Por isso que nosso léxico checa!

É esse tipo de discussão que existe no mundo da morfologia. Veja esta questão que é muito abordada mas que ninguém sabe responder: o que é uma a palavra?

Sintaxe

Podemos descrever sintaxe como o estudo da maneira como as palavras formam a estrutura das frases. A gramática é o centro do sistema linguístico, e assim como a morfologia, ela lida com as classes gramaticais das palavras. Ao contrário do que aprendemos na escola, a classe gramatical de uma palavra é definida somente pela sua localização na frase e pela sua morfologia, não pelo seu significado.

Cada língua tem sua própria ordem das palavras. Por exemplo, a do inglês, assim como a do português, é SVO (sujeito, verbo e objeto), e a sintaxe nos mostra isso em um diagrama arbóreo (forma hierárquica). Para montá-lo, usamos sintagmas (phrases): TP à NP VP. Aqui, TP significa tree structure, ou seja, a estrutura da frase. Seguindo, o NP – noun phrase, ou sintagma nominal – tem o substantivo, que representa o sujeito da frase, pois vem antes do verbo. O VP – verb phrase, ou sintagma verbal – representa o verbo, que traz o objeto no sintagma, assim: VP à V NP. E assim a frase segue crescendo.

Usemos, como exemplo, a frase The man killed the king with the knife (em português “O homem matou o rei com a faca”). Nessa frase, existem dois tipos de ambiguidade: a lexical, por causa do significado das palavras (o rei tinha a faca ou foi esfaqueado por um homem) e a estrutural, por causa da estrutura da frase. O diagrama arbóreo pode nos ajudar com a ambiguidade estrutural! Ele existe para que possamos capturar a relação entre as palavras de uma sentença e a intuição de que certas palavras estão mais conectadas do que outras em uma sentença. Veja as análises abaixo, que também trazem o sintagma preposicional (prepositional phrase) PP à P NP:

  • Como o rei foi morto (esfaqueado) à [with the knife] refere-se ao verbo killed, tendo, então, que ficar conectado ao VP (verb phrase) para que a frase tenha o significado apropriado.

  • O rei com a faca à [with the kinife] refere-se ao substantivo king, tendo, então, que ficar conectado ao PP para que a frase tenha o significado apropriado.

Essa perspectiva de análise sintática – Gramática Gerativa – foi “criada” por Noam Chomsky, e ela explica o que é a nossa competência linguística. De acordo com o linguista, os seres humanos têm um conhecimento nato sobre gramática e que as regras de produção de sentenças e de organização dos itens lexicais para montar palavras estão “armazenadas” no nosso léxico. Há muitos linguistas que discordam dessa teoria.

Semântica

Para estudar semântica, é preciso saber os conceitos básicos de significado para que seja possível estudar a semântica formal, que é o estudo do significado através da lógica usando funções matemáticas.

Quando usamos a palavra muito, o que essa quantidade significa para você? “Muita chuva” pode ter um significado muito diferente para uma pessoa que mora em um país tropical e para uma pessoa que mora no deserto. De acordo com a semântica, existem duas maneiras de dar significado às palavras: sentido e denotação. O sentido de uma palavra é a representação mental dela, a paráfrase (dicionário). Já a denotação de uma palavra é a parte da realidade à qual essa expressão está vinculada. Por exemplo, podemos definir a palavra “azul” apontando para algo azul e dizendo “esta é a cor azul”. A palavra “azul” denota a cor azul e objetos azuis no mundo. Os nomes que damos às coisas são uma denotação delas, e não somente uma descrição. Em semântica formal, as letras “e” e “t” representam tipos de denotações. Entidades são do tipo “e” e o significado de uma sentença é do tipo “t”. Na frase Midge likes ice cream, o verbo to like tem duas entidades – Midge e ice cream – e por isso é representado assim: <e, <e,t>>.

A foto abaixo mostra duas estruturas diferentes dessa frase: à esquerda, a semântica, e à direita, a sintática.

Brevemente, é isso que a foto mostra: se removermos as expressões que se referem à entidades (nesse caso, Midge e ice cream), nos resta somente o que chamamos de predicado (nesse caso, o verbo to like). A semântica formal diz que as entidades, que têm uma relação com o predicado da sentença, são chamadas de argumentos. Representamos tudo isso assim: LIKE(m, i). A letra “m” refere-se à Midge e a “i” refere-se à ice cream.

A letra grega λ (lambda) é usada como notação lambda em semântica, e é usada para representar funções. Usando λ, podemos definir as entidades no nosso léxico, de acordo com seus tipos. Aqui está a representação das entidades, usando lamba:

MIDGE à MIDGE(x) à λx[MIDGE(x)]

ICE CREAM à ICE CREAM(y) à λy[ICE CREAM(y)]

E assim seguimos calculando.

Agora, reflita sobre a comparação das estruturas da foto: o que é S (ou TP), NP e VP e porque usamos t, e e <e,t>, respectivamente, para representá-los? Veja como o sistema faz sentido e como tudo se encaixa, no nosso léxico.

Fonologia e fonética

A fonologia e fonética estudam aspectos fônicos, físicos e fisiológicos de uma certa língua. A fonética foca na produção e percepção dos sons, e a fonologia, nos padrões dos sons que encontramos em uma certa língua. O objetivo da fonologia é entender a organização dos sons de uma palavra, ou seja, entender o sistema tácito de regras que um falante usa. Então, para estudar fonologia, é preciso saber fonética. Os conceitos básicos de fonética referem-se à maneira na qual as consoantes e vogais, que têm suas próprias características, se comportam no trato vocal.

Consoantes são classificadas de três maneiras:

  • Vocalização: uma consoante sonora (vocalizada), como “z” em inglês, faz com que as cordas vocais vibrem. A foto abaixo mostra como as cordas vocais se fecham quando produzimos uma consoante vocalizada (posição vibratória).

Pelo contrário, a consoante “s”, por exemplo, não faz as cordas vocais vibrarem e por isso é considerada surda (não vocalizada). A foto abaixo mostra como as cordas vocais se abrem quando produzimos uma consoante não vocalizada.

  • Modo de articulação: como ocorre a passagem de ar e quanto ar se passa pelos articuladores para se produzir uma palavra. Elas podem ser oclusivas (stop), nasais, fricativas, africadas, vibrantes (tap e trill) e aproximantes (centrais e laterais).
  • Lugar de articulação: descreve o encontro de dois articuladores, que é o onde ocorre a maior restrição de ar no trato vocal. Elas podem ser: bilabial, labiodental, dental, alveolar, palato-alveolar, retroflexa, palatal, velar, uvular, faringal e glotal.

Exemplo: a consoante “b” é oclusiva bilabial vocalizada (voiced bilabial stop), pois para produzirmos seu som precisamos encostar os dois lábios e restringir completamente a passagem de ar. A foto abaixo mostra as consoantes do Alfabeto Fonético Internacional (International Phonetic AlphabetIPA). Lembre-se de que os símbolos representam sons, não letras.

As consoantes e vogais são estudadas diferentemente porque as vogais não têm um lugar de articulação. Não há obstrução na passagem de ar quando produzimos uma vogal, e por isso o trato vocal todo é considerado uma “câmara ressonante”. Os movimentos da língua, da mandíbula e dos lábios fazem com que timbres diferentes sejam transmitidos aos sons produzidos nas cordas vocais, e, assim, produzimos vogais com sons diferentes. Por isso, classificamos as vogais de três maneiras:

  • Altura da língua: alta (fechada – close), média-alta (meio-fechada – close-mid), média-baixa (meio-aberta – open-mid) e baixa (aberta – open)
  • Anterioridade/posterioridade da língua: anterior (front), central e posterior (back)
  • Arredondamento dos lábios: arredondados (rounded) ou estendidos (unrounded)

A foto abaixo mostra as vogais do Alfabeto Fonético Internacional. Note que o formato do quadro é o formato da nossa boca.

Tente reproduzir os sons e repare quais partes da boca são usadas. Por exemplo, fale “i” e veja onde você coloca a língua. Caso queira aprender mais sobre os sons e seus símbolos representantes, brinque com esse IPA interativo: IPA Chart

Depois de aprender os fones e fonemas, fazemos transcrição fonética. Veja se você consegue ler a frase abaixo:

ɪf ju kæn rid ðɪs, θæŋk ə ˈtiʧər

Conseguiu? Aqui vão algumas dicas:

  • [ð] = “th” sonoro (como that do inglês)
  • [θ] = “th” surdo (como thin do inglês)
  • [ʧ] = “tch” (como tchau, do português)

E agora? A frase é “if you can read this, thank a teacher”. Sempre achei muito interessante que o som da letra “o”, em algumas palavras do inglês, é transcrito com som de “a”, como na palavra stop, cuja transcrição é [stɑp].

Depois de estudar esses e outros conceitos básicos, as aulas de fonologia, nas quais estudamos padrões e conexões entre os sons de uma língua, fazem um pouco mais de sentido. As regras fonológicas de uma língua são estudadas através de uma análise de datasets, que nos permite entender melhor certas mudanças de sons que acontecem em uma certa língua.

Veja algumas das regras gerais e mais comuns do inglês:

  • Assimilação: extensão do som de um segmento para outro adjacente.

Exemplo: quando se pronuncia o “n” em ten bucks, os nossos lábios se juntam em preparação para falar o “b”. Então, o som do “n” acaba saindo parecido com o som de “m”. Por isso, parece que é uma a palavra só, tembucks. O mesmo acontece com a palavra input.

  • Dissimilação: mudança na sonoridade de dois sons parecidos, de consoantes ou de vogais, para que fiquem menos parecidos.

Exemplo: em inglês, uma consoante oclusiva vira fricativa quando é seguida de uma outra oclusiva. A palavra sixth é pronunciada “sikst” e /sθ/ vira /st/.

  • Eliminação: eliminação de sons de uma palavra.

Exemplo: a palavra police, na fala, vira “plice” e friendship, vira “frenship”

É interessante ressaltar que, nesse texto, usei exemplos do inglês, que é uma língua falada. Isso significa que todos os ramos da linguística são necessário para que essa língua exista. Não obstante, ASL (American Sign Language) não tem uso algum para fonética e fonologia e depende muito da morfologia, sintaxe e semântica. Mas a ideia é que se uma língua existe é porque ela é um sistema linguístico, ou seja, ela tem suas regras internas e uma maneira correta de ser reproduzida.

Espero não ter te assustado, pois o objetivo era te deixar mais encantado por línguas e seus sistemas! E, talvez, até motivá-lo para estudar outras línguas e compará-las com o português. Discutir linguística é uma das coisas que mais tenho prazer em fazer na vida, então, estou aqui caso tenha mais interesse no assunto. E lembre-se: keep calm and study linguistics!

Bibliografia:

Hayes, Bruce. Introductory Phonology. Wiley-Blackwell, 2009.

Haspelmath, Martin and Sims, Andrea. Understanding Morphology. Routledge, 2010.

Carnie, Andrew. Syntax: A Generative Introduction. Wiley-Blackwell, 2013.

Kearns, Kate. Semantics. Palgrave Macmillan, 2011.

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